A dádiva do olhar [ensaio]

Somos formados por experiências decorrentes da interação do mundo interior com o mundo exterior, a qual acontece primariamente por meio dos cinco sentidos. Quando uma pessoa não goza da plenitude de um desses sentidos, como por exemplo a visão, a reação mais primitiva dos outros diante da privação é a pena e a sensação de que a alguém foi negada a totalidade da experiência humana. No entanto, o deficiente encontra novos meios de percepção e de vivência para construir sua experiência. Oliver Sacks, neurologista inglês, considera em seu livro Um Antropólogo em Marte (1995) que, devido à cegueira, certas áreas do cérebro destinadas ao tato e à audição podem ser alargadas e até mesmo “se expandir para o que normalmente é o córtex visual”. Pessoas cegas desenvolvem hábitos e estratégias perceptivas particulares, adaptadas ou reorientadas, que os permitem apropriar-se do mundo de uma maneira diferente, em termos não visuais.

sacksOliver Sacks relata a história de Virgil, que, após 40 anos de cegueira, recebeu o “dom” da visão devido ao empenho de sua noiva e a uma cirurgia de remoção de catarata. O autor conta sobre as dificuldades e progressos de um homem que teve todos os aspectos de sua vida radicalmente modificados ao ter uma nova maneira de interação com o mundo imposta. Segundo o neurologista, “nos que acabam de ganhar a visão, aprender a ver exige uma mudança radical no funcionamento neurológico e, com isso, uma mudança radical no funcionamento psicológico, no eu, na identidade.” No capítulo Ver e não ver do livro de Sacks, ele coloca em xeque a naturalidade ou mesmo a necessidade da visão e o que ela requer do ser.

janela-um-filme-sobre-o-olharA consciência do processo visual também é tema do filme Janela da Alma, de João Jardim e Walter Carvalho (2002). Pessoas muito diferentes relatam e discutem o papel da visão e sua relevância na relação com os outros e com o meio. O professor de literatura Paulo Cezar Lopes enfatiza que “cada experiência de olhar é um limite. A gente não conhece as coisas como elas são mesmo, só mediadas pela nossa experiência”. A história de Virgil exemplifica o fato de que a construção de um mundo não visual pode ser plena e verdadeira mesmo que exilada do plano visual. Ele relata dilemas de “pessoas cegas confrontadas com a ‘dádiva’ da visão e com a necessidade de renunciar a um mundo, a uma identidade, por outro”.

Virgil perde sua segurança e coerência ao se deparar com a visão que poda suas capacidades ao invés de aumentar dramaticamente suas possibilidades como seria esperado de um novo sentido. Ele precisa acostumar-se e aprender a reconhecer visualmente o mundo tátil no qual viveu por anos, porém agora em termos espaciais e não mais sequenciais e temporais. A história de Virgil comprova a teoria do pscicólogo canadense Donald Hebb de que “para ver é preciso experiência e aprendizado”. Segundo o livro de Sacks, o ato de olhar é como um comportamento, “ver não é suficiente; é preciso olhar também”.

O fotógrafo cego Eugen Bavcar relata no longa-metragem sua própria experiência ao encontrar uma maneira pessoal de sentir e expressar-se. “Não devemos falar a língua dos outros, nem utilizar o olhar dos outros, porque, nesse caso, existimos através do outros. É preciso tentar existir por si mesmo”. Olhar, para Bavcar, é uma maneira de colocar-se no mundo e interagir com ele, mesmo que sem a visão física. A educação do “olhar” e da interpretação do mundo não depende de processos biológicos.

Ver nunca foi tão supervalorizado quanto na cultura audiovisual do contexto atual. No documentário, José Saramago relata um momento de epifania no qual se deu conta de que somos todos cegos, “cegos da razão, da sensibilidade”, daquilo que nos constitui. Se para o homem cego a limitação da visão é constantemente evidente, é preciso um esforço consciente para constatarmos e admitirmos que temos pouca experiência com o enxergar. Muitas imagens se apresentam a todo o momento e ao mesmo tempo, mas elas pouco nos afetam ou mesmo recebem interpretação, sem grandes contribuições para a construção do ser. O cineasta Win Wenders pondera que “a maioria de nós tem tudo em excesso e ter tudo em excesso significa que ficamos insensíveis. A atual superabundância de imagens significa, basicamente, que somos incapazes de prestar atenção.”

Assim como a Virgil foi requerido esforço e treinamento da vista, a nós, videntes contemporâneos, é requerido o aprimoramento do atributo de enxergar. Precisamos educar o olhar para interpretar e construir tão ativamente quanto um cego que interage e vivencia plenamente as coisas pelo tato. E também devemos saber quando abdicar da visão frívola e fora de contexto, semelhantemente à redenção final de Virgil que voltou a ser cego após frustrantes batalhas em mundo alheio. A definição do eu na cultura de massa passa pela questão das imagens e intenções visuais e da consequente apatia proporcionada por uma inexpressividade generalizada.

“A maioria das imagens que vemos não tentam nos dizer algo, elas tentam nos vender algo. Mas a necessidade fundamental do ser humano é que as coisas nos digam algo”, afirma Wenders. O cerne do olhar não está em impulsos elétricos correndo pela retina, mas em significado, construção e interpretação. Trata-se de um processo tão trabalhoso quanto a aprendizagem visual de Virgil. Romper com a cegueira de sentido generalizada requer também um desejo de compreensão e conscientização do atual analfabetismo visual-funcional que encontramos na produção e consumo da superficialidade. Esta jornada individual só pode ser vivenciada e relatada por aqueles que aguçam seus sentidos e pagam o preço do desconforto luminoso que vem de fora da caverna de Platão.

[por Daniela Urquidi, maio 2011]

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