Para lembrar ao mundo [resenha]

► HERSEY, John. Hiroshima. São Paulo: Companhia das Letras, 2002.

Hiroshima, de John Hersey é uma reportagem que corrobora com a tese do jornalismo espelho da realidade. Transformada em literatura, torna-se uma narrativa com dados reais, pessoas de verdade e certo lirismo. Não bastasse a grandiosidade do tema — os efeitos da primeira bomba atômica —, a abordagem e o tratamento emprestados aos dados envolvem, informam e tocam.

661759Em dezessete dias de extensa apuração, Hersey colheu diversas histórias para entender o que se passou no dia 6 de agosto de 1945 em Hiroshima, no Japão. Publicada inicialmente em edição especial na revista americana The New Yorker após um ano da explosão, a reportagem fala de civis comuns por meio dos depoimentos de seis vítimas, escolhidas para ilustrar a devastação que ia além de uma estratégia de guerra. São habitantes da cidade de Hiroshima, uma das poucas até então não atingidas durante a Segunda Guerra Mundial. Um bombardeio aéreo era esperado a qualquer momento, o que havia tornado o som das sirenes de alerta algo cotidiano. A dimensão do fato não cabe em números: dos 245 mil habitantes, cerca de 100 mil morreram nas horas próximas à explosão e outros 100 mil ficaram feridos com fraturas e queimaduras nunca antes vistas. Tratava-se de uma nova forma de ataque que era incompreensível aos sobreviventes.

Para dar forma, consistência e humanidade a esses dados eles foram reduzidos à vida de seis personagens que contaram o que viram, sentiram, fizeram e sofreram, minuto a minuto antes e depois da explosão da bomba, às 8h15 daquele dia. Cada aspecto de suas vidas é relatado com rigor jornalístico, porém de um modo tocante. O autor relata o que normalmente faziam, como era sua vida, seus planos para o futuro e no que aquela surpreendente sobrevivência o transformou, dando colorido à frieza dos números, aproximando o leitor da tragédia.

Imprimindo nome, rosto e endereço às vítimas, ele consegue falar de diversas classes sociais e de como isso não mais importava para os sobreviventes. Um médico rico, o Dr. Masakazu Fujii, é exemplo da população resignada e simpática aos Estados Unidos. Uma jovem auxiliar de escritório, Toshiko Sasaki, é motivo para relatar a precariedade do socorro aos feridos — já que a metade da população sobrevivente precisava de atendimento do qual os médicos e enfermeiros não tinham conhecimento. Como o jovem médico Terufumi Sasaki, que trabalhou no Hospital da Cruz Vermelha por três dias seguidos dormindo apenas uma hora por noite. Sua história nos traz a realidade do número e a dimensão do esforço necessário. Uma outra parcela da população não sofreu lesões imediatas, mas as consequências da radiointoxicação levaram inúmeras pessoas a uma vida de hospitalizações. Os sintomas que assomavam o padre jesuíta alemão Wilhelm Kleinsorge ficaram conhecidos como a “doença da bomba A”.

Conhecidos como “hibakusha”, os sobreviventes passaram a ser discriminados e tratados com descaso pelas autoridades. Hatsuyo Nakamura, dona de casa e viúva com três filhos pequenos, passou pelas dificuldades do pós-bomba passando por necessidades básicas e fome. O desenrolar do bombardeio para esta família e os efeitos sobre as crianças são momentos que expõe a grande complexidade do fenômeno da bomba atômica. A tragédia parece mais real quando refletimos sobre o sofrimento de crianças e idosos, inocentes sujeitos à decisão do imperador de ir à guerra e à insanidade americana de demonstrar seu poderio. A narrativa mais notável fica, porém, com o esforço em ajudar as vítimas de Kiyoshi Tanimoto, reverendo da Igreja Metodista. Ele não parou por um instante de correr socorrendo pessoas dos incêndios, levando-as de uma margem a outra dos rios que cortam a cidade para deixá-las em local seguro. Sua impotência diante da dimensão do fato é a impotência do leitor. Intriga e toca a dor silenciosa da população frente à nova arma de destruição em massa que mudou o conceito de guerra.

No último capítulo, o escritor retorna a Hiroshima depois de 40 anos para ver e relatar a situação da cidade reconstruída. O reencontro com as personagens fala das vitórias e derrotas, de preconceitos, dificuldades e recuperações. O desfecho à pior história da guerra nos faz refletir sobre o atual momento de incertezas em que armas ainda mais poderosas são desenvolvidas. Concorda-se em muitos momentos com Hersey ao longo de seu relato, mas ecoa fundo e por muito tempo sua frase de encerramento: “[Tanimoto] Estava diminuindo o ritmo. Sua memória, como a do mundo, começava a falhar.”

Vale a pena ler:
http://www.companhiadasletras.com.br/detalhe.php?codigo=11512

[por Daniela Urquidi, set/2007]

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