Felicidades afim [ensaio]

E se felicidade fosse lei? Sim! Você, eu e todo mundo teríamos que simplesmente ser felizes. Mas em qual felicidade, na minha ou na sua? Será que a lei teria que descobrir todos os tipos de felicidades possíveis? Me lembro de uma tia velha que dava grandes gargalhadas, tão altas e profundas que parecia que ia explodir. E às vezes quase explodia. Ficava pensando em minha pequena satisfação: “Tanta risada não cabe em mim”. Outra amiguinha fechava os olhos quando ria de feliz. Se ria, não via; então podia sorrir para si. Minha alegria? Sempre foi simples, satisfeita com pouco, de uma felicidade menor. Será que com a lei de ser feliz teria que sorrir ao passar pelos policiais para atestar que estou cumprindo meu dever de cidadã?

Podem argumentar uns que alegria é muito bom e que tornar a felicidade constituional traz certo avanço humanístico. Mas quem não lembra que fazer aquilo que ninguém mais faz é bem mais gostoso? Aquele sentimento inexplicável de alcançar um objetivo com esforço, suor e dedicação. Para então abrir um sorrisão de realização. Já pensou se bebês com suas deliciosas gargalhadas não fizessem nada mais que sua obrigação? A polícia poderia ser chamada em caso de corações arrasados: “Oficial, ele acabou com a minha felicidade. Prenda-o!”. E como saberia o policial se realmente havia lei violada ou mesmo felicidade anterior?

Se felicidade fosse fácil não seria tão discutida. Mas somos brasileiros, a alegria é um item de série. Ou pelo menos a garra para não desistir. Porque sobram desafios, injustiças e calamidades cotidianas. Se a gente desistisse fácil, já teria debandado. Mas continuamos torcendo pelo time, fazendo churrasco na laje e batalhando pelo futuro. Que futuro? De um dia encontrar a felicidade. Mas de quem é a responsabilidade? Parece óbvio. Sua. Minha? É! De quem quer ser feliz!

A felicidade é meu direito, seja lei escrita ou não. Aprende-se vivendo, acertando e errando. Lei não faz ninguém feliz. Se fizesse, era só reunir tudo o que já foi prometido e o resultado seria uma vida tranquila e alegre. Felicidade de verdade só na prática. Melhor do que sonhar em ser feliz, é chegar ao final do arco-íris. Ou desfrutar a travessia.

Trilha sonora: Felicidade — Vinícius e Toquinho

[por Daniela Urquidi, abril 2010]

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