Limites ou possibilidades? [ensaio]

Há muito no mundo que não é compreendido, mas tudo o que o é passa a ser imediatamente transmitido. A criança conta à mãe o que aprendeu na escola, o cientista escreve um ensaio sobre suas descobertas, o amigo ouve confissões, o louco fala sozinho. A língua parece ser mais do que o veículo de ideias, muitas vezes ela mesma parece tornar a ideia concreta pelo simples ato de ser enunciada.

A língua muitas vezes é confundida com a vida: porque Fulana disse, Cicrana fez; se Beltrano escreveu deve ser verdade; “estou te dizendo, acredite em mim!”. Ao dar um passo atrás e admirar a Língua em sua totalidade lembramos que ela é código, convenção feita por homens desejosos de comunicar o mundo. A palavra “vaca” poderia ser mais longa ou mais curta, mas ainda traria à minha mente um animal quadrúpede, herbívoro e mamífero. Mas nem tudo neste código é tão simples. Quando digo “amor” mil significações e sentidos podem ser atribuídos e entendidos por meu ouvinte. Falha do código? Talvez, mas melhor seria falarmos em mundos diferentes. O código representa o mundo, mas qual dos mundos queremos elucidar? Aquele de 100 anos atrás ou o de 1000 anos à frente? O mundo do louco ou do civilizado? Por serem muitos os mundos, cada língua possui um código. E cada código (mesmo os diferentes idiomas) é mais ou menos abrangente quanto a semelhança de sua própria realidade.

Além das limitações geográficas, a língua também sofre influências do tempo e contexto. Não se trata de um evento, mas de um processo. Por ser fruto do intelecto humano, a linguagem está viva e em constante evolução, assim como o indivíduo e a sociedade. Pensemos na linguagem do idoso comparada à do jovem, do arcaico comparado ao contemporâneo, ou mesmo nas adições diárias que nossa língua sofre. São necessidades diárias e imperativas. Há alguns anos não havia metade dos termos tecnológicos a que hoje estamos sujeitos –e somos sujeitos. Criamos novos mundos, criamos novas linguagens.
Mas não apenas o mundo físico é sujeito dessa interação com a língua. Daquilo que não pode ser visto há muito o que ser dito. Algumas vezes esbarramos no indizível, mas para isso há poetas: para expressar o que todos sentem, mas só o dominador do sublime concebe em palavra. Mundos imaginados e sonhados inundam nossa comunicação. Nosso imaginário constitui quem somos, nossa cultura e nosso modo de ver o mundo: afeta nosso código. Tentamos expressar sentimentos, planos e crenças com a mesma língua com que descrevemos objetos e fenômenos: todos fazem parte da realidade humana, merecendo lugar no código. E quando o código nos falta podemos ampliá-lo, alargar nossa experiência através de metáforas. Combinações de idéias e palavras aparentemente icorrelatas que criam novos significados. Significados que fazem sentido. Não através sensorial, mas pelo intelecto que tornou a criação da própria linguagem possível ao homem.

A linguagem não é apenas suporte da arte, mas arte em si mesma. Arte porque surpreende, vai além de suas possibilidades, suscita em nós algo que desconhecíamos. A arte tem muitas funções, assim como a língua, mas elas se encontram quando a simples comunicação é sobrepujada. Quando uma frase parece encerrar tudo o que a realidade não poderia. Quando percebemos quão pequenos somos diante do mundo e ainda assim como podemos ser senhores dele quando dominamos a língua. Não necessariamente a linguagem retórica ou literária, mas a linguagem que nos é mais útil, em diferentes contexto. A língua mais poderosa para mim será sempre a que diz respeito à minha própria realidade. E como tudo o que encerra poder em si pende ora para o bem ora para o mal, podemos compreender o ditado: “o chicote fere a carne, mas a língua quebra os ossos.” O poder que a língua põe nas mãos do homem, no entanto, vai além do que o chicote e o vigor físico podem. Ela acompanha o homem de sua criação à sua morte, algo que o vigor não pode.

Somos autores de nossa língua. Ela nos mantem unidos como pessoas e como nação. Ela nos livra do isolamento do silêncio, da dureza chã da realidade física, ela nos liberta para partes do ser humano antes desconhecidas. Somos seus servos e seus senhores. É onde criatura e criador se confundem em um balé cósmico rumo ao desconhecido. Você passará. Ela passarinho.

[por Daniela Urquidi, março de 2010]

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s

Crie um site ou blog no WordPress.com

Acima ↑

%d blogueiros gostam disto: