Segundos [crônica]

Era noite escura, por volta das 21 horas e caminhávamos lado a lado. Estávamos prontas para ir pra casa depois de um dia cansativo de trabalho batendo portas e tentando falar sobre religião para pessoas ocupadas e desinteressadas. Mas estávamos felizes e satisfeitas por termos cumprido nossas responsabilidades e estarmos a apenas três quarteirões de casa. Não havia muito que nos preocupasse no pacato subúrbio da pequena cidade de Aurora e, entretidas, conversávamos sobre a vida antes de nos conhecermos. Retornávamos pelo mesmo caminho quase que diariamente, sempre no mesmo horário. As ruas vazias não me traziam mais nenhuma surpresa, nem mesmo as raposas e coiotes que atravessavam correndo os jardins. Foi então que algo mais ameaçador cruzou nosso caminho naquela noite gelada.

No momento em que dávamos o último passo já na esquina para então começar a atravessar a rua, um carro em alta velocidade aproximou-se em nossa direção. Fez a curva rente ao meio fio. Cantou os pneus. E da mesma maneira que surgiu, desapareceu. Ainda o vi dirigir embriagadamente descontrolado até sumir de vista. Nós. A noite escura e fria. O silêncio mortal que se seguiu. Nós. Ficamos onde estávamos havia 5 segundos. Paradas na esquina. Paralisadas por alguns segundos, com o coração palpitante. A respiração ofegante atestava que estávamos vivas. Estivéssemos apenas um passo à frente e a história terminaria diferente. Centímetros nos salvaram. Continuamos caminhando em silêncio. Pensei em meus pais. Como eles entenderiam que sua filha de 21 anos em um país distante fora atingida pela imprudência? Felizmente eles não precisariam entender.

Ainda em silêncio chegamos ao nosso quarto, pensando no efeito do próximo segundo no restante de nossas vidas. Depois conversamos muito. Sobre irresponsabilidade ao volante, proteção divina e, principalmente, sobre o valor da vida e como ela pode acabar fragilmente em um passo. Um descuido. Um segundo. Um alguém. Nós. Mas o que somos nós além de segundos acumulados?

[por Daniela Urquidi, abril 2011]

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