Ser fugaz [ensaio]

“O nosso eu é edificado pela superposição de estados sucessivos” – Marcel Proust

A partir de percepções primárias observamos que o homem regular muda e se transforma ao longo de seu desenvolvimento. Passa de bebê passivo a jovem exuberante, de vivacidade constituída a sobriedade senil. Descobre o mundo, a comunicação, a linguagem, a si mesmo e aperfeiçoa sua capacidade crítica e habilidade intelectual. O homem é, sobretudo, diferente de si mesmo ao longo de sua vida. Seres e existires acumulados que constituem uma forma única de ser para um determinado momento. “O ‘eu’ é apenas um dos espasmos instantâneos do mundo”, diz Clarice Lispector em A paixão segundo G.H.. O eu não pertence exclusivamente ao sujeito em processo, mas ao mundo no qual se insere e aos muitos outros seres que se conjugam ao seu redor. O conceito de “dasein”, de Heidegger, implica o pressuposto de que “há modos de ser”, visto que o ser depende da ação, momento em que o “ser está sendo”.

Nos diversos movimentos de sua execução, o ser só pode ser articulado pelo sujeito e pela consciência através da linguagem. Mesmo que esta não venha articulada por meio de palavras, o código utilizado para integrar o mundo se estebalece como linguagem. Por meio dela, o indivíduo organiza-se sujeito e questiona seu eu mutante – ser anterior à consciência. “A linguagem é a morada do ser”, segundo Heidegger, porque nela ele se abriga para realizar-se e compreender-se. A língua é o que permite à consciência o questionamento e ajuizamento da questão ontológica. Encontrar a colocação adequada do “sentido do ser” está restrito àqueles que dominam o idioma e o pensamento lógico articulável. Assim, enunciação e expressão possibilitam que a consciência exerça seu papel de auto-(re)conhecimento ontológico. Processo este continuamente imperioso, visto que, segunda a premissa adotada, a existência só tem sentido em seu universo circundante, no “ser-aí’ instável.

Sendo o universo circundante elemento fundamental para o entendimento do ser, é primordial também a compreensão do relacionamento entre os sujeitos individuais, sistematizado pela linguagem. A língua não somente registra, mas permite e amplia possibilidades de mundo e, consequentemente, possibilidades de ser. Diante do processo linguístico que transcende o sujeito, cada indivíduo subordinado ao cosmo e ao todo também se estabelece como um todo distinto e singular. Na hierarquia indefinida de inúmeros microcosmos dos seres o caminho para a significação passa pela linguagem, pela consciência, pelo sujeito e, enfim, pela formulação do ser. “O idioma é a única porta para o infinito”, onde folga livremente o fugaz ser.

 

[por Daniela Urquidi, abril de 2011]

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