Mulan – Walt Disney, 1998 [resenha]

Mulan é um clássico Disney tanto quanto Cinderela ou A Bela e a Fera. A animação levou 5 anos para ficar pronta e foi exibida pela primeira vez em 1998. Dirigida por Tony Brancroft e Barry Cook, foi indicada ao Oscar, ao Globo de Ouro e ao Grammy por sua trilha sonora. Mas não são os prêmios que me prendem por uma hora e meia à emocionante história de Mulan. Confesso que sempre me identifiquei com a personagem e tenho verdadeira adoração por este desenho animado. E que garota não teria? Mulan é forte, decidida e inteligente.

Já assisti ao filme inúmeras vezes, mas há sempre mágica ao envolver-se novamente com os personagens e ao deslumbrar-se com a técnica, promovida por 700 profissionais, entre técnicos, animadores e artistas. Mulan é uma obra-prima cinematográfica. Trata-se da adaptação de um clássico da literatura chinesa “Poema de Fa Mulan”, que conta a lenda de uma menina travestida em guerreiro para poder lutar e proteger seu país. A história é a mesma, mas carregada de humor, de drama, um leve toque de romance e o imperdível musical-disney. A trama tem um ritmo constante e dominador, alternando momentos dramáticos ou emocionais com piadas e momentos cômicos.

A paisagem aquarelada é um descanso para os olhos. Logo de início vemos a geografia chinesa aos poucos desenhada em papel de arroz. A sutileza é uma das grandes marcas do filme.  A história também discute a delicadeza das tradições.  Mulan é esperta, atrevida, decidida, mas inadequada. Ela é uma jovem dividida entre seu dever e seu coração. Ela não consegue encaixar-se na sociedade que reprime e limita as mulheres – que não podiam nem falar na presença de um homem – , mesmo que queira honrar seu pai e sua família. Lealdade e honra são elementos importantes para entender as atitudes dos personagens e sua tradição.

As apresentações terminam e a ação começa de verdade quando a convocação do exército chega. Um homem de cada família deve demonstrar sua lealdade ao imperador servindo no exército contra os hunos, que transpuseram a grande muralha da China. Isso significa que o velho e fraco pai de Mulan, Fa Zhou, irá praticamente caminhar para a morte, já que não tem um filho que possa tomar seu lugar e honrar seu nome. Escondida e disfarçada, Mulan assume o lugar do pai e vai ao acampamento dos recrutas para seu treinamento. Mas não vai ser fácil aprender a ser um homem e ser aceita por seus pares. Isso rende altas risadas e a fabulosa música “Não vou desistir de nenhum ”, em que o comandante Li Shang – o galã – treina  os desastrados soldados. Prefiro a versão em português da música que expressa a esperança e confiança no potencial dos novatos (aliás, esse é um filme que vale a pena ser visto dublado). Apesar de não ter a força de um homem, Mulan usa o cérebro e a inteligência para ganhar vantagem.

Mas ela não faz tudo isso sozinha, ela tem como protetor Mushu, um pequeno dragão atrapalhado – e um pouco egoísta – que está  tentando salvar a própria pele dos ancestrais transformando-a em heroína. O papel é feito por Eddy Murphy (e seu respectivo dublador em português), o que por si só já garante uma boa comédia com ótimas piadas. Há também o companheiro Cri-Kee, um grilo da sorte que adiciona um toque de graciosidade e delicadeza às aventuras. Há ainda os três soldados que se tornarão amigos e companheiros de Mulan. Eles representam o pensamento machista do exército e da sociedade e também a mudança de atitude ao ver do que Mulan é capaz.

É ela que, com sua estratégia e inteligência, vence o imenso exército huno e salva o imperador sem a necessidade de mais vidas desperdiçadas. Na hora da ação, ela corre em direção ao perigo e faz aquilo que seu coração manda. Inevitavelmente, ela é desmascarada, mas é aí que está o grand-finale. O perigo ainda ronda e é como mulher que ela então se realiza. Desta vez tirando vantagem do preconceito social, ela novamente usa o cérebro e sai vitoriosa. Mas agora ela não é o fake Ping, é ela mesma. E é como tal que ela é reconhecida em uma das cenas mais lindas que já vi. Após a bronca que recebe diretamente do imperador, uma multidão – ao estilo chinês –, incluindo o próprio imperador, curva-se em reverência e honra à Mulan. Não poderia faltar então o reconhecimento realmente anseado, o de seu pai. As cenas finais arrematam uma animação feita de bom gosto. E não deixam de contemplar nosso desejo de romance, mesmo que discretamente como a tradição chinesa pede.

Mesmo que você já tenha assistido, vale a pena prestar atenção nas sutilezas e belezas que só muita dedicação confere à obra. Para indicar apenas duas cenas bem diferentes em conteúdo e intenção, vale prestar atenção na cena do banho na lagoa em que Mulan vai se limpar – altamente cômica –, e o momento poético de reverência perante à devastação da guerra, quando ela deposita uma bonequinha junto ao capacete do general, homenageando não só os militares, mas também os inocentes.

Poderia continuar escrevendo sobre Mulan por dias, mas nada do que seja dito tira a magia de assistir a este clássico. Esta é uma animação para qualquer dia e qualquer ânimo, para passar o tempo e para refletir sobre nossos próprios preconceitos. Sempre quis ser como Mulan para romper as barreiras, superar as expectativas, descobrir a mim mesma apesar dos outros e honrar minha família por quem sou. Superando em muito a tonta Branca-de-Neve que é sempre a vítima,  Mulan é um presente da Disney a todas as garotas-mulheres do século 21 e seus admiradores.

Veja a música “Não vou desistir de nenhum”

P.S. Há alguns anos foi feita uma continuação do filme (Mulan II) que não chega aos pés da técnica e esforço do primeiro, além de distorcer um pouco os personagens. Esse eu não recomendo.

[Blog Sessão das 4, por Daniela Urquidi, maio de 2010]

 

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