O ratinho néscio [fábula]

O pequeno ratinho espiou de sua toca. Não havia sinal do gavião. Fora esse inconveniente, vivia em um campo tranquilo, com cereais suficientes para contentar mesmo um rato três vezes maior que ele. E ainda bem, pois seu primo Gérald estava para chegar em sua visita anual.

Gérald vivia em um palacete com uma esplendorosa vista. Vinha sempre contando vantagem, colocando-se como exemplo e incomodando com suas críticas e disparates. Mesmo assim ele o recebia todos os anos, e ouvia atentamente a tudo que lhe era dito. Sequer sabia como ser indelicado e mandar o primo pastar, então sempre que chegava o momento da despedida, sentia um misto de alívio e tristeza.

– Não sei como você aguenta essa vida monótona! Que pasmaceira esse lugar.

– Não é não, primo! Todas as manhãs tenho que ficar de olho no gavião que bate ponto por aqui. Já estamos ficamos quase íntimos várias vezes.

– Ah, então não sei como você suporta uma vizinhança perigosa dessas! Eu mesmo corro meus riscos, pois madame empregou mais um gato nessa primavera. Se não me cuido, vupt! Seria uma imensa choradeira.

– Nunca vi gatos. Se parecem com o gavião?

– Nunca viu um gato? – rolou de rir Gérald. – Você é uma piada, primo! Precisa se expandir seus horizontes, conhecer o mundo, sair dessa situação insustentável em que vive aqui.

– Mas não seria mais perigoso vagar pelo mundo? Na minha toca ao menos tenho um bom estoque de comida, sei o dia de amanhã, sei que o gavião volta toda…

– Um bom estoque? Primo, eu já ia me oferecer para ajudar! Você está tão magrinho que parece que passa fome! Se fosse lá na cidade todos esses problemas se resolveriam. Veja só o que aconteceu comigo!

Desconfiado como era, o ratinho sentiu uma ponta de remorso por não acreditar no primo. Será que sua vida não era tão boa quanto achava que fosse? Se Gérald estivesse certo, seria preciso mudar muita coisa, fazer uma revolução em sua vida. Quanto mais pensava nisso, mais confuso ficava e mais incomodado por desejar a partida do primo.

– Pense bem, meu bom amigo, eu estarei esperando na cidade caso decida lutar por uma vida melhor. Faça como eu, agora mesmo sairei por um novo caminho e explorarei o…

O ratinho mal teve tempo de abrir a boca antes que Gerald, garboso e néscio, saísse pela porta da frente diretamente para as garras do gavião. Sentiu um misto de alívio e tristeza. Não haveria visita no ano que vem.

 

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