Desdém [crônica]

Quem nunca sofreu por amor que atire a primeira mentira. Nesta existência confusa, há um prazer sádico em buscar apaixonar-se, em insistir naquilo que nunca deu certo. Não é simples ser solteiro no século XXI — aliás, sitcoms intermináveis já foram dedicadas a rir da fossa dos solteiros, para o bem e para o mal. E sempre haverá mais um conselho, mais uma esperança, uma nova forma de frustração.

Minha tia solteirona me aconselhou a internet no auge de seus 60 e tantos anos: fez maravilhas por suas amigas e agora faz parte de seu próprio menu de opções. Depois de balançar a cabeça educadamente por meses a fio, desisti de manter a dignidade analógica (ora, qual?) e me lancei aos algoritmos.

No início tudo era muito sério e sóbrio, como se escolhesse gametas. Logo percebi a vantagem da superficialidade de selecionar alguém por três ou quatro fotos e uma (às vezes terrível e quase sempre imprecisa) autodescrição. Isso sem contar o maior trunfo de quem fatura sobre os millennials: a gameficação do jogo amoroso. Só quem correu virtualmente por horas no Mario Kart jogando cascos aleatórios nos amiguinhos vai entender o prazer de um match. Conectaram o prazer de ser correspondido àquele de acertar um alvo que se move!

Um dia, já de viagem marcada para o Rio de Janeiro, torci internamente por um match com um carioca bonitão. Dia de glória! Conversa vai, conversa vem, conto que estou chegando no dia seguinte e que poderíamos sair. Depois dos cumprimentos desajeitados (apesar das intenções às claras desvendadas pelos bits e bites), pôr-do-sol no Pão de Açúcar, noite romântica à beira da Lagoa Rodrigo de Freitas e climinha que pinta em meio ao samba — são dois avatares fazendo a gameficação valer a pena. E todas as histórias de sucesso de tantas almas gêmeas dando sopa online invadem a imaginação e constroem castelos de areia.

Porém o que a internet ainda não conseguiu remediar é a certeza da manhã do dia seguinte, é o próprio ser humano. O que a internet uniu, a ex, o passado e a distância certamente separam. Os aplicativos e sites podem até ter aumentado as possibilidades, resta a saber se não apenas de mais desapontamentos.

Mas a quem vou enganar, tão certamente quanto a novela continua na semana que vem, voltarei a sentir o gostinho do match em breve. Tão logo esqueça o amargo do desapontamento e da ruína dos meus castelos. Porque podemos até estar no século XXI, mas estes genes foram programados para o prazer sádico de não desistir da fossa na promessa da bossa.

[por Daniela Urquidi, 9/02/2019]

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