A hora mais escura [conto]

Ele sabia que essa terça-feira seria diferente desde a hora que acordara. Era um dia nublado de trabalho, como outro qualquer de inverno, mas pressentia a surpresa no ar. Não gostava de surpresas, definitivamente não. Seu tempo no exército alemão o havia treinado a ser meticuloso, organizado e sobretudo desconfiado. Dormia com sua arma embaixo do travesseiro, motivo de disputas frequentes com a namorada brasileira que encarava tudo com uma moleza encantadora, mas não aceitável. Cedrick, no entanto, não se incomodava com a implicância, era importante estar sempre alerta e preparado.

O dia decorreu sem qualquer contratempo e ele mesmo esqueceu do incômodo da manhã. O trem das 17h11 partiu sem novidades e a caminhada fria até a casa foi monótona como sempre. Mas parecia que a surpresa o esperava atrás da porta enquanto procurava suas chaves. Como queria ter sua arma em si nesse momento para não ser surpreendido! Mas ela estava na cômoda do quarto.

Ao abrir a porta, encarou apenas a sala vazia e escura, porém não podia ignorar o cheiro de surpresa que pairava no ar. Com cuidado vasculhou todos os cantos até chegar ao quarto e colocar o revólver na cintura, tudo sem acender as luzes. Pensou que assim se sentiria mais seguro, porém não sabia que surpresa esperar. Não parecia estar mais protegido dentro da casa, definitivamente havia algo no ar. Sentia a tensão da surpresa que tardava agonizante.

Sentou-se na cozinha de onde conseguia ver a sala e o corredor dos quartos. No escuro, ficou entregue a seus próprios pensamentos. Lembrou-se que o que o havia acordado de manhã havia sido um sonho estranho. Os russos o haviam surpreendido e o perseguiam, invadiam o quartel onde se refugiara, o acossavam pela floresta, sempre alguns passos atrás dele, surpreendendo-o na próxima curva. Parecia que não podia despistá-los, que não podia correr mais rápido que eles, que eles estariam para sempre em seu encalço. Despertou no momento em que, em meio à corrida, algo o surpreendeu. Sonho estranho. Mais estranho era conseguir lembrar-se dele, mesmo que aos trancos, algo no qual não era muito bom. Não seria a sensação de surpresa apenas um efeito do susto que o despertara?

Convencido da tolice, tentou dissipar suas preocupações com um copo de vodka. Um brinde aos russos e às surpresas! E num só gole lá se foi a bebida. Lembrou-se de sua irmã mais nova, de sua ternura e vontade inata de agradá-lo. Havia sido num desses dias de pesadelos inconvenientes que voltou para casa bêbado e surpreendeu a família destruindo metade da casa, pensando que fugia do inimigo. Havia assustado tanto a menina e sua mãe que desde então ela o proibira de ver a irmã e de pisar naquela casa. Com o segundo copo veio a certeza de que sua mãe não gostava dele. Com o terceiro uma nostalgia mesclada ao ódio que sentia por surpresas.

Que inferno, porque não aparece logo! O silêncio respondia numa torturante iminência obscura, numa intenção que se negava a concretizar. Tomou o resto da garrafa e, ao invés de ter sua percepção adormecida, a sensação da surpresa apenas crescia. Decidiu andar pelos cômodos no breu, assustar a surpresa com sua presença, surpreendê-la num gesto de descuido e acabar com ela! Caminhou, depois correu, depois criou uma barricada de móveis na porta, depois outras nas janelas, depois outra mais alta para esconder-se atrás. E a surpresa apenas crescia. Parecia que a havia concentrado dentro da casa, que não tinha mais para onde escapar – nem ela, nem eu.

Em meio à espera Cedrick lembrou-se da discussão recente com a namorada, de como não a via já por alguns dias. Nunca por mérito seu, ela sempre voltava. Mas o pensamento foi interrompido pelo prenúncio da surpresa, essa sensação que o impedia de pensar. Olhou para trás e era certo de que a surpresa estava lá. Era seu celular a tocar. A voz dela soou, dizendo que dessa vez não tinham mais jeito, que havia decidido voltar ao Brasil e que não a procurasse mais. Mas ele quase não entendeu o que ouvira com o olhar fixo no corredor. Com a arma em punho, já nada importava mais: os russos haviam chegado.

[por Daniela Urquidi, 19/02/2019]

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s

Crie um site ou blog no WordPress.com

Acima ↑

%d blogueiros gostam disto: