Não sei sambar [crônica]

Grossas gotas de chuva e um sol dourado de fim de tarde. O bloco se dispersava mas a rua ainda era nossa, e como eu queria que fosse ainda e ainda e ainda. Sinto às vezes que desfruto do Carnaval como estrangeira, alheia à cultura que de tão sedutora parece externa a mim. Me entrego à aglomeração, ao êxtase coletivo, aos sonhos de cores, corpos e amores e assisto como espectadora ao Arlequim chorando pelo amor de Colombina no meio da multidão.

Nunca fui de pular Carnaval, é a verdade,mas a festa de rua paulistana recém descoberta tem outro apelo, outro viço e me chamou tal qual serpente na videira – evoé, Baco! É a promessa de sobrevida curta, é o povo na rua e o prazer efêmero que se desmancha junto com a fantasia na chuva de verão. É também a chance de dançar no meio da avenida gritando impropérios e beijando uma odalisca ou um sultão.

Na primeira vez que me entreguei a esses carnavais de rua, encontrei um Rei Momo multicores que me saiu com a máxima de Zé Ketti: vou beijar-te agora, não me leve a mal, pois é Carnaval. Fato consumado e irônico, ora pois: primeiro carnaval e logo com o rei momo! Em tempos conectados, é vantagem poder encontrar bocas furtivas e fantasiadas que não poderão mais se encontrar. Por isso foi uma surpresa encontrá-lo de novo, em outro bloco, em outro bairro, agora incorporando o próprio Pierrô. Conversamos mais e ele me contou de seus carnavais em Recife, Salvador, Tiradentes… onde houvesse um bloco na rua ele encantadoramente estaria pulando atrás. Vejam só, minha estreia carnavalesca logo com um folião profissional.

O bloco seguiu, os dois seguiram e também as serpentinas dos amores. O ritual continuava, cada dia um bloco, às vezes marchinhas, às vezes Jorge Ben ou um bom axé anos 1990 – e porque não um funk para ir até o chão. Cada dia uma nova trilha sonora, uma nova São Paulo e uma nova fantasia – ah, como eu amo a chance de entregar tudo às asas da imaginação e da criatividade. Mas o que me encanta mais ainda nessa festa alheia a mim é a experiência de ser mais um na multidão. Mas não mais um como no bloco-zumbi-dos-operários-da-estação-Pinheiros-do-metrô-às-seis-da-tarde, e sim mais um compondo e fazendo e criando, mais um que faz a festa ser o que é.

Este ano que tanto me soou como um pós-carnaval —já que a patrulha ideológica promete ser implacável nos próximos anos, ameaçando a festa do povo com seus chiliques de golden shower—, senti uma nostalgia ao colocar a fantasia de grega, de laranja e colombina. Confesso que mais de uma vez quis reconhecer o pierrô momesco em vozes e risos largos disparados ao meu redor. É mais provável que esteja no Rio dessa vez. Ou perdido na multidão dos 12 milhões de foliões de São Paulo. Minha saudosa lembrança de dias felizes, dias de descanso em território alheio, lampejos de um jeito mais simples de se viver. Por enquanto, vou me guardando pra quando o carnaval chegar.

[por Daniela Urquidi, 13/03/2019]

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