Montanha russa [crônica]

 “O jornalista é um homem que errou de profissão” – atribuída a Otto Von Bismarck

Quando terminei o colegial sabia apenas uma coisa: que deveria continuar estudando. Fora isso, a imensa disponibilidade de profissões me deixava atordoada. Cheguei a ser bióloga marinha, engenheira florestal, professora e por fim escritora. Eu sabia apenas que os números não me acompanhariam. Tentavam não influenciar minha decisão, o que me angustiava muito mais. Como decidir aos 17 anos o resto da minha vida? Mesmo assim o tempo urgia e a decisão se aproximava. Continue lendo “Montanha russa [crônica]”

Ser fugaz [ensaio]

“O nosso eu é edificado pela superposição de estados sucessivos” – Marcel Proust

A partir de percepções primárias observamos que o homem regular muda e se transforma ao longo de seu desenvolvimento. Passa de bebê passivo a jovem exuberante, de vivacidade constituída a sobriedade senil. Descobre o mundo, a comunicação, a linguagem, a si mesmo e aperfeiçoa sua capacidade crítica e habilidade intelectual. O homem é, sobretudo, diferente de si mesmo ao longo de sua vida. Seres e existires acumulados que constituem uma forma única de ser para um determinado momento. Continue lendo “Ser fugaz [ensaio]”

Para fazer a diferença

Quando a perversidade cotidiana nos atacava, nos apoiávamos num sonho desbotado.

Quando as pressões e responsabilidades nos assaltavam, nos refugiávamos entre camaradas. Quando os obstáculos pareciam maiores que nossas pernas e forças, mentores nos impeliram além das capacidades manifestas.

Quatro anos se passaram como um sonho. Fomos testados, estimulados, censurados, renovados, superados e aperfeiçoados. A aprendizagem nunca termina, só muda de formato. E foi nos diversos moldes encontrados na faculdade que minha juventude foi forjada. Continue lendo “Para fazer a diferença”

Segundos [crônica]

Era noite escura, por volta das 21 horas e caminhávamos lado a lado. Estávamos prontas para ir pra casa depois de um dia cansativo de trabalho batendo portas e tentando falar sobre religião para pessoas ocupadas e desinteressadas. Mas estávamos felizes e satisfeitas por termos cumprido nossas responsabilidades e estarmos a apenas três quarteirões de casa. Continue lendo “Segundos [crônica]”

Limites ou possibilidades? [ensaio]

Há muito no mundo que não é compreendido, mas tudo o que o é passa a ser imediatamente transmitido. A criança conta à mãe o que aprendeu na escola, o cientista escreve um ensaio sobre suas descobertas, o amigo ouve confissões, o louco fala sozinho. A língua parece ser mais do que o veículo de ideias, muitas vezes ela mesma parece tornar a ideia concreta pelo simples ato de ser enunciada. Continue lendo “Limites ou possibilidades? [ensaio]”

Mistério Latino

Figura exótica, feito curvas de Gaudí. Sem demora de observação, puxam a atenção brilhantes olhos: grandes, imensos, serenos como o lago Titicaca, encanto de elevadas alturas. Tão negros quanto madrugada no deserto do Atacama. São pedras de ônix perdidas no chaco: úmidas, profundas, olheiras cansadas de lama. São enfeitadas por cílios de carvão milenar muito compridos. Emoldurando olhos hispanos, duas sobrancelhas fortemente definidas como desenho de Picasso. Continue lendo “Mistério Latino”

Sê inteiro

Para ser grande, sê inteiro: nada
Teu exagera ou exclui.
Sê todo em cada coisa. Põe quanto és
No mínimo que fazes.
Assim como em cada lago a lua toda
Brilha, porque alta vive.

[por Fernando Pessoa/Ricardo Reis, “Ode”]

noite_balao

 

Nosso melhor retrato

“Nossa língua, o português do Brasil, é fruto de uma longa história. Criação coletiva que afirma e expressa nossa identidade, ela está todo o tempo sendo reinventada por nós: nas roças, nas ruas e favelas, em nossos ritmos e ritos, nos poemas e nas canções. Todos somos autores de nossa língua, todos somos seus alunos e professores.
Nossa língua é, portanto, nosso melhor retrato.”

-Museu da Língua Portuguesa

(Pré)Testamento

“Vi terras da minha terra.
Por outras terras andei.
Mas o que ficou marcado
No meu olhar fatigado,
Foram terras que inventei.”

(Testamento, Manuel Bandeira)

 

Crie um site ou blog no WordPress.com

Acima ↑