tenho ainda uma coisa a dizer…

Escuta, escuta: tenho ainda
uma coisa a dizer.
Não é importante, eu sei, não vai
salvar o mundo, não mudará
a vida de ninguém – mas quem
é hoje capaz de salvar o mundo
ou apenas mudar o sentido
da vida de alguém?
Escuta-me, não te demoro.
É coisa pouca, como a chuvinha
que vem vindo devagar.
São três, quatro palavras, pouco
mais. Palavras que te quero confiar,
para que não se extinga o seu lume,
o seu lume breve.
Palavras que muito amei,
que talvez ame ainda.
Elas são a casa, o sal da língua.

– O sal da língua (1995), de Eugénio de Andrade

📷: @portroche (Gervasio Troche)

O Brazil Doado [resenha]

BIONDI, Aloysio. O Brasil Privatizado: um balanço do desmonte de Estado. São Paulo: Editora Fundação Perseu Abramo, 2003.

O livro de Aloysio Biondi “O Brasil privatizado” é amargo como uma briga perdida. O autor, derrotado e rancoroso, quer a todo custo provar em números e vírgulas (das cifras dos milhões e bilhões) que o Governo enganou o cidadão, mentiu escandalosamente, defraudou o patrimônio do contribuinte e beneficiou os compradores das empresas estatais. Continue lendo “O Brazil Doado [resenha]”

Para fazer a diferença

Quando a perversidade cotidiana nos atacava, nos apoiávamos num sonho desbotado.

Quando as pressões e responsabilidades nos assaltavam, nos refugiávamos entre camaradas. Quando os obstáculos pareciam maiores que nossas pernas e forças, mentores nos impeliram além das capacidades manifestas.

Quatro anos se passaram como um sonho. Fomos testados, estimulados, censurados, renovados, superados e aperfeiçoados. A aprendizagem nunca termina, só muda de formato. E foi nos diversos moldes encontrados na faculdade que minha juventude foi forjada. Continue lendo “Para fazer a diferença”

Segundos [crônica]

Era noite escura, por volta das 21 horas e caminhávamos lado a lado. Estávamos prontas para ir pra casa depois de um dia cansativo de trabalho batendo portas e tentando falar sobre religião para pessoas ocupadas e desinteressadas. Mas estávamos felizes e satisfeitas por termos cumprido nossas responsabilidades e estarmos a apenas três quarteirões de casa. Continue lendo “Segundos [crônica]”

Limites ou possibilidades? [ensaio]

Há muito no mundo que não é compreendido, mas tudo o que o é passa a ser imediatamente transmitido. A criança conta à mãe o que aprendeu na escola, o cientista escreve um ensaio sobre suas descobertas, o amigo ouve confissões, o louco fala sozinho. A língua parece ser mais do que o veículo de ideias, muitas vezes ela mesma parece tornar a ideia concreta pelo simples ato de ser enunciada. Continue lendo “Limites ou possibilidades? [ensaio]”

Mistério Latino

Figura exótica, feito curvas de Gaudí. Sem demora de observação, puxam a atenção brilhantes olhos: grandes, imensos, serenos como o lago Titicaca, encanto de elevadas alturas. Tão negros quanto madrugada no deserto do Atacama. São pedras de ônix perdidas no chaco: úmidas, profundas, olheiras cansadas de lama. São enfeitadas por cílios de carvão milenar muito compridos. Emoldurando olhos hispanos, duas sobrancelhas fortemente definidas como desenho de Picasso. Continue lendo “Mistério Latino”

Nosso melhor retrato

“Nossa língua, o português do Brasil, é fruto de uma longa história. Criação coletiva que afirma e expressa nossa identidade, ela está todo o tempo sendo reinventada por nós: nas roças, nas ruas e favelas, em nossos ritmos e ritos, nos poemas e nas canções. Todos somos autores de nossa língua, todos somos seus alunos e professores.
Nossa língua é, portanto, nosso melhor retrato.”

-Museu da Língua Portuguesa

Para lembrar ao mundo [resenha]

► HERSEY, John. Hiroshima. São Paulo: Companhia das Letras, 2002.

Hiroshima, de John Hersey é uma reportagem que corrobora com a tese do jornalismo espelho da realidade. Transformada em literatura, torna-se uma narrativa com dados reais, pessoas de verdade e certo lirismo. Não bastasse a grandiosidade do tema — os efeitos da primeira bomba atômica —, a abordagem e o tratamento emprestados aos dados envolvem, informam e tocam. Continue lendo “Para lembrar ao mundo [resenha]”

A dádiva do olhar [ensaio]

Somos formados por experiências decorrentes da interação do mundo interior com o mundo exterior, a qual acontece primariamente por meio dos cinco sentidos. Quando uma pessoa não goza da plenitude de um desses sentidos, como por exemplo a visão, a reação mais primitiva dos outros diante da privação é a pena e a sensação de que a alguém foi negada a totalidade da experiência humana. No entanto, o deficiente encontra novos meios de percepção e de vivência para construir sua experiência. Continue lendo “A dádiva do olhar [ensaio]”

(Pré)Testamento

“Vi terras da minha terra.
Por outras terras andei.
Mas o que ficou marcado
No meu olhar fatigado,
Foram terras que inventei.”

(Testamento, Manuel Bandeira)

 

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